8 de abr de 2009

Coelhinho da Páscoa que trazes pra mim?

Quem não se lembra deste famoso jingle, que fazia a alegria da garotada, anunciando a chegada daqueles maravilhosos ovos de chocolate, recheados com guloseimas ainda mais maravilhosas? Talvez, esta pergunta, seja válida apenas para a turma da velha guarda, porque a da nova geração nem sei se tem um jingle para comemorar esta data. É provável que tenha, mas, deve ser bem diferente, já que com toda a variedade de itens produzidos para a época, distribuídos entre formas, tamanhos, cores, sabores, pesos e preços tão distintos, o pobrezinho do coelho precisaria contratar uma empresa de logística para cuidar do transporte. Entretanto, em uma coisa concordamos, o bom e tradicional ovo de Páscoa continua sendo imbatível em todo o mundo. E, como se sabe a matéria-prima principal, deste tão apreciado acepipe, é o chocolate e, sua base, o cacau. Muito bem, chegamos ao cerne do meu texto... Parece que o mundo do cacau brasileiro não anda tão doce como deveria. Pelo menos é o que nos mostra interessante matéria, publicada ontem pelo jornal O Estado de São Paulo e, assinada por Xico Graziano, secretário do meio ambiente do estado. Não vou transcrever a matéria toda, ela está lá disponível para quem quiser ler, apenas vou pinçar alguns detalhes que serão relevantes para o desenvolvimento deste meu texto. Desde já, quero cumprimentar o autor pela relevância do assunto, uma vez que o mesmo só lembrado nesta época. Comecemos então pelos fatos históricos. O cacau é de origem amazônica. Assim como uma infinidade de outras espécies, muitas vezes só lembradas quando alguma empresa estrangeira registra o seu nome, como foi o notório caso do cupuaçu. De acordo com a história, o manejo do cultivo deste fruto pelo homem civilizado, remonta lá ao ano de 1.746. Até aquela data, tanto árvores como frutos, viviam livres, leves e soltas, quer dizer, fixas ao solo, tendo como único colheiteiro, o nativo que vivia na região e estes, não conheciam os coelhos. Por volta de 1.822, bem no auge de nossa independência, a Bahia já era o principal pólo produtor do fruto. O ciclo econômico do produto conheceu o seu momento de glória já em 1.900. Infelizmente, como diz aquela famosa frase “acabou-se o que era doce, quem comeu arregalou-se” e, o Brasil que, desde aquela época, já incomodava alguns importadores com o seu quase exclusivismo na produção e comercialização do fruto, começou a sofrer uma inevitável concorrência por conta de cultivos que surgiam na África e na Ásia. Mesmo tendo sido líder absoluto na produção cacaueira, hoje amarga, apesar do doce do fruto, um quinto lugar no ranking dos produtores mundiais. Em primeiro lugar está a Costa do Marfim com 1.365 toneladas, Gana com 759 mil, Indonésia com 480 mil, Nigéria com 200 mil e finalmente o Brasil com 171 mil toneladas. Os dados se referem ao período 2007/08 fornecidos pela ICCO – Organização Internacional do Cacau. Desta maneira, o continente africano detém 71,8% da produção mundial, a América (Brasil, Venezuela e outros) 12,4% e a Ásia com 15,9%. E já que costumo dizer que o presente é uma foto do passado tratada pelo “photoshop”, em meados do século passado, o aumento da oferta provocou uma queda geral nos preços, inevitavelmente, arrastando consigo a rentabilidade das lavouras. Aqui, abrirei um pequeno parêntesis, para incluir ao texto, uma observação adicional, obtida através da leitura de um livro que recomendo chamado “Brasil – Raízes do Atraso”, do economista e ex-colaborador do IPEA, Fábio Giambiagi. O subtítulo também é bastante curioso: “As dez vacas sagradas que acorrentam o país”. Pois é exatamente uma destas vacas sagradas que pretendo incluir no contexto. É a vaca que trata do protecionismo. Quero antecipar que o autor é contrário a este mecanismo e, por razões plausíveis, assim como eu. Por isso mesmo, vamos enveredar pela linha histórica do protecionismo, chegando lá em seu começo, pelas mãos de Alexander Hamilton, primeiro secretário do tesouro dos Estados Unidos e quem, concebeu a idéia da “proteção à indústria nascente”, talvez, o avô do protecionismo. Posteriormente, o assunto foi desenvolvido por outro grande economista chamado Frederick List. A “proteção à indústria nascente” por definição consistia em afirmar que certos setores industriais, em alguns anos, poderiam se tornar competitivos no âmbito internacional, por isso, era mais do que justificável que se criasse um mecanismo que protegesse esta “indústria nascente” até que ela obtivesse vantagens competitivas. Voltemos ao cacau e sua história no Brasil. Só em 1.957, o governo resolveu criar a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), ficando responsável este órgão pela pesquisa e o apoio à produção nacional. Mais de cinqüenta anos se passaram até que o governo acenasse com uma iniciativa de “proteção à indústria nacional”. O foco da CEPLAC era o de modernizar o sistema de produção. Infelizmente, alguns fatores negativos, como a barreira provocada pela cultura local dos produtores e seus costumes e as forças oligárquicas cacaueiras que comandavam a produção tornaram relativos os sucessos do projeto da CEPLAC. Parece que aqueles que deveriam proteger a indústria nacional, a estavam sufocando por excesso de preciosismo e interesses. E como o tempo, a panacéia para todos os problemas, não pára, chegamos ao tempo da globalização e a produção local, consegue com muito custo, acompanhar a linha do tempo, bastante debilitada. Até que o tiro de misericórdia é dado e o país passa a importar chocolate. O mesmo só não aconteceu com o café, porque as associações de produtores são bastante vigorosas. É triste saber que o país que foi o berço de origem do fruto e que, tornara-se grande exportador de matéria-prima, agora passa a ser importador de chocolate pronto e, finalmente, até da pasta bruta de chocolate. Diria eu que a indústria que era nascente, agora anda muito próximo de ser morrente. E, se pensávamos que o pior já havia acontecido, eis que a bruxa, literalmente falando, se solta. Infelizmente, em 1989, as lavouras são infestadas por um fungo que, desembarcou criminosamente nas lavouras, a chamada “vassoura de bruxa”. Produções são completamente dizimadas. Os prejuízos incalculáveis. Apenas para se ter uma idéia do tamanho do estrago, em 1986 a produção nacional atingia as 460 mil toneladas. Em 2003, este número não passou de 171 mil. Mais de 200 mil empregos desapareceram e, ao final, as perdas foram totalizadas em torno de US$ 1,4 bilhão criando um empobrecimento regional e uma tragédia econômica. Mas, ninguém sabe o tamanho da força deste “gigante adormecido” e, há dez anos, a Embrapa e a Ceplac vem desenvolvendo uma variedade que seja resistente ao fungo. Entretanto, o tempo é o senhor de todas as coisas e, hoje com a brutal queda na produção, o país importa um terço do chocolate consumido. Para se ter uma dimensão dos volumes comercializados pelo mundo, a ICCO divulgou em relatório onde nos mostra que o consumo de cacau no período 2006/07 foi de 3,6 milhões de toneladas. Considerando que cada tonelada esta cotada a algo em torno de US$ 2.000,00 estamos falando em US$ 7,2 bilhões. Um valor nada desprezível. Mas, não podemos apenas nos limitar e enxergar estes números. E os empregos que desapareceram? Se considerarmos toda a cadeia produtiva envolvida no cacau, desde o seu plantio até a chegada nas mãos do consumidor, a quantidade de vagas não criadas é significativa. Imaginemos dividir esta cadeia em três grandes momentos: produção, industrialização e comercialização. Quantas pessoas e empresas não são beneficiadas em cada um destes momentos? Tomemos apenas a produção: agricultores, sementes, fertilizantes, energia elétrica, água, impostos, máquinas e implementos agrícolas, embalagem, estocagem, transporte, fretes, caminhões, pneus, combustível, indústria automotiva e, as aquisições feitas pelos produtores e seus funcionários com os seus lucros e salários. É mais do que provável que os componentes envolvidos sejam em número muito maior, mas, como não sou especialista limito-me a apresentar aqueles que me vêem à cabeça. E se falarmos da industrialização e da comercialização, a cadeia fica ainda maior. Não sei quantos empregos seriam gerados direta e indiretamente, talvez aqueles 200 mil que desapareceram não fossem restituídos, graças às novas tecnologias, mas, pensemos em 100 mil. Ainda assim, é um número pra lá de apreciável. O consumidor de chocolate no mundo exige produtos cada vez mais finos e com maior variedade. Quem é que discute as inúmeras variedades que poderiam ser criadas através da combinação do chocolate com as exóticas frutas brasileiras? Qual não seria o seu potencial? Lembro-me de certa feita ter comido uma mousse de chocolate com calda de cupuaçu. Garanto que a sobremesa faria qualquer chefe de cozinha cair de joelhos. E quem a preparou não foi nenhum especialista na arte. O que não dizer das criações feitas pelas mãos de profissionais? O governo precisa retomar este assunto com urgência e ampliar sua atenção não apenas às grandes commodities, como é o caso da soja. Nem todos se beneficiam deste cultivo, apesar dos grandes volumes envolvidos. O investimento em tecnologia, principalmente na Embrapa, órgão já mundialmente reconhecido, deve ser feito de maneira maciça para que consigamos debelar definitivamente esta praga que assolou nossa produção e, a partir daí, desenvolvermos processos mais avançados de cultivo. Precisamos subir ao quarto, ao terceiro, ao segundo e chegar ao primeiro lugar no ranking de produtores mundiais. Precisamos recuperar este um por cento que hoje é importado e transformá-lo em exportação. Só com comprometimento e força de vontade política poderemos mudar este quadro. Só assim, poderemos ouvir o coelhinho da Páscoa respondendo: “um ovo, dos ovos, três ovos com o chocolate do Brasil”.



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