5 de mar de 2009

Você sabe o que é doença holandesa?

Não precisa se preocupar, se está pensando que se trata de algum vírus novo ou, que seja alguma versão atualizada da doença da “vaca louca”. Mas, antes de explicar que “bicho” é este, deixe-me fazer uma pergunta: Você acha que é possível, um país superabundante em recursos naturais, não conseguir melhorar sua produção e riqueza? Muito bem, se você respondeu que sim, acertou. Agora, se respondeu que não, acertou também. Curioso, mas, verdadeiro. Então, como é possível? Preste atenção nesta história. Na década de 80, depois do início da exploração de petróleo no Mar do Norte, o Reino Unido se transformou de importador líquido em exportador líquido de petróleo. A taxa de câmbio da libra esterlina subiu e o preço das exportações inglesas, durante algum tempo, perdeu sua competitividade. O termo “doença holandesa” surgiu na década de 70, como forma de explicar as dificuldades, pelas quais passou o setor manufatureiro holandês, após a descoberta de gás natural. Mas, como é possível, passar por dificuldades quando se descobre uma reserva de gás natural? Acontece, que com esta descoberta, a Holanda se tornou um grande exportador deste recurso natural, logo, com o aumento das exportações, a economia holandesa passou a receber uma enxurrada de dólares, valorizando sua moeda local. Esta valorização, por sua vez, reduziu a competitividade dos outros produtos de exportação do país. Esta é a razão, porque muitos analistas, citam países pobres em recursos, como Hong Kong, Japão e Europa Ocidental e que prosperam bastante, enquanto nações ricas em recursos naturais não conseguem ir muito longe, é o caso da Nigéria, por exemplo. Outro fator que pode ser considerado negativo, em virtude desta “riqueza fácil” é o tipo de padrão de vida que ela proporciona aos cidadãos destes países. Percebe-se, claramente, que os países produtores de petróleo da região do Golfo Pérsico, disponibilizam tantas facilidades aos seus cidadãos que, aqueles que carecem de uma forte disposição para o trabalho, acabam se entregando ao ócio. A maioria das atividades é executada por imigrantes e trabalhadores com vistos temporários. Existem ainda os efeitos políticos adversos. Os grupos dominantes, alocando parte dos recursos oriundos desta riqueza, conseguem acalmar o povo, aumentando a dependência do estado através do assistencialismo exacerbado e, com isso, se mantém no poder. Os efeitos negativos de uma administração errada destes recursos podem ser tão drásticos para a economia, que o presidente de São Tomé e Príncipe (na costa ocidental da África), ao descobrir grandes reservas de petróleo em suas águas territoriais manifestou-se contrário à sua exploração. Segundo o próprio presidente, países pobres em recursos, apresentam desempenho melhor, em termos de crescimento do PIB, do que países em desenvolvimento ricos em recursos. Parece que certas profecias acabam mesmo se realizando. Em 1970, Juan Pablo Pérez, ex-ministro do petróleo da Venezuela e co-fundador da OPEP disse a seguinte frase: “Daqui a dez ou vinte anos, vocês verão, o petróleo será a nossa ruína”. É claro que o ex-ministro referia-se a todos os países produtores de petróleo. Hoje, sabemos que vários países, assentados em gigantescas reservas petrolíferas, amargam sérios percalços em suas economias. A Venezuela sofre com o desabastecimento de gêneros básicos, reduziu drasticamente os programas sociais e, praticamente, secou a fonte de financiamento, a países inadimplentes impedidos de recorrer aos recursos do FMI, caso da Argentina. Dubai, até muito pouco tempo, era o que podíamos chamar de “paraíso na terra” ou, na areia. Projetos fabulosos, que consumiriam trilhões de dólares, construções luxuosas, centros de excelência em saúde e, uma infraestrutura de causar inveja a qualquer país na face da terra, estão em stand-by. Parece que a areia está cobrindo o paraíso. Os volumosos recursos petrolíferos, que enchiam os sonhos e os bolsos dos xeiques, estão cada vez mais minguados, colocando todos os projetos de volta à prancheta. Outro caso bastante atual é o vivenciado pela Rússia. Grandes reservas de petróleo e, o preço do barril de petróleo despencando dia após dia. Não é à toa que a OPEP insiste em que seus membros reduzam a produção, como forma de tentar escassear um pouco o produto, fazendo valer a lei da demanda e da oferta. Mas, infelizmente, para eles é claro, o remédio parece não estar surtindo efeito. O mundo está em recessão ou, pelo menos, as principais economias e, por isso, a ordem do dia é reduzir gastos, cortar custos onde for possível. O petróleo usado nas indústrias e nos sistemas de calefação não pode ser cortado, mas, aquele que é transformado em combustível para mover os veículos, já é outra história. Os países correm atrás de alternativas, e uma delas é o bio-combustível e aqui, está o Brasil liderando. Provavelmente, e esperemos que assim seja, o Brasil tem todas as chances de se tornar o maior exportador deste recurso. E então, o que acontece? Uma enxurrada de dólares vai entrar em nossos cofres, valorizar nossa moeda e reduzir a competitividade dos outros produtos? Pode ser, se nossas autoridades não souberem administrar de maneira competente esta “riqueza não tão fácil” de maneira a solidificar nosso parque industrial, modernizar nossa infraestrutura aeroportuária, realizar uma profunda reforma tributária e, acima de tudo, investir pesadamente na educação de base e na educação de nível superior, na qualificação técnica e profissional deste exército de jovens que tenta ingressar no mercado de trabalho ano após ano, erradicar a pústula da corrupção e aprimorar uma mentalidade exportadora de incomparável qualidade. Não sou contrário à abertura dos mercados, não sou favorável ao protecionismo (salvo contra as operações ilegais e com viés de dumping), sou a favor de um jogo com regras equilibradas e bem claras. Por isso, nosso país, poderá estar vivendo, muito em breve, momentos gloriosos em sua economia e, ao contrário do que estão propondo hoje, muitos países, no tocante ao protecionismo, o Brasil poderá manter suas portas sempre abertas, porque nossa capacidade, nossa criatividade e os investimentos pesados nos quesitos mencionados, serão como uma tríplice vacina contra qualquer tipo de doença, seja ela holandesa, alemã, italiana, americana, chinesa ou até marciana.

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