5 de mar de 2009

Chávez ordena "expropriação" da Cargill

Folha de São Paulo
Decisão contra multinacional americana de alimentos é anunciada em meio à disputa sobre escassez de produtos básicos

Nacionalizações anteriores na Venezuela incluíram indenização; Caracas desiste de estatizar banco ligado ao grupo Santander

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, determinou ontem a expropriação da multinacional norte-americana Cargill, em meio à disputa com as fábricas de alimentos sobre de quem é a culpa pelas falhas no abastecimento e pela inflação.
"Que comece o processo expropriatório da Cargill e com investigação judicial", ordenou Chávez ao ministro da Agricultura, Elías Jaua, durante reunião transmitida pela TV estatal. "Prepare-me o decreto."
Ao contrário do que fez nas nacionalizações anteriores, Chávez usou a palavra "expropriação" e não falou em indenização. Na semana passada, ele disse que, caso estatizasse empresas de alimentos, o pagamento seria feito por meio de bônus, e não em dinheiro.
O presidente anunciou a estatização logo depois de acusar a empresa americana de produzir apenas variedades de arroz que fogem ao congelamento de preço. Desde sábado, Chávez determinou uma intervenção militar nas fábricas de beneficiamento do produto para que produzam mais arroz branco, tabelado pelo governo.
Anteontem, um decreto estabeleceu que pelo menos 80% da produção das fábricas deve ser de arroz branco. As empresas alegam que os preços congelados não cobrem nem sequer os custos de produção, principalmente por causa da inflação alta -30,9% no ano passado.
No anúncio, Chávez não deixou claro se a medida atinge apenas a fábrica de arroz da Cargill -a empresa produz na Venezuela óleo, farinha, macarrão, açúcar e café, entre outros alimentos. Chávez também voltou a ameaçar a empresa venezuelana Polar, a maior fabricante de alimentos do país e que está com sua fábrica de arroz sob intervenção.
"Nós poderíamos expropriar todas as fábricas da Polar, eu lhe advirto, senhor [Lorenzo] Mendoza, porque o senhor manda os seus advogados dizerem que uma expropriação, bom, está bem. Se você quer brigar com governo, lhe digo que não é com governo, mas com a lei", afirmou.
"A oligarquia deveria estar rezando para que a crise não nos atinja duramente. Porque este que está e estes que estamos aqui não vamos fazer nada para salvaguardar os interesses da oligarquia. Vamos fazer tudo para salvaguardar os interesses do povo venezuelano."

Nacionalização adiada
Ainda ontem, Chávez decidiu adiar por pelo menos um ano a nacionalização do Banco Venezuela, um dos maiores do país e pertencente ao grupo espanhol Santander, informaram fontes do governo e do banco à agência de notícias Reuters.
O anúncio da nacionalização havia sido feito em 31 de julho pelo próprio Chávez. O Banco de Venezuela é o terceiro maior do país, com cerca de 10% dos depósitos, 285 agências e 3 milhões de clientes. O valor de compra foi estimado em aproximadamente US$ 1,9 bilhão.
Até agora, o governo venezuelano não pagou a maior parte das nacionalizações feitas desde o início de 2007, quando Chávez deu início ao plano de ampliar a presença do Estado na economia. Segundo estimativa do economista da Universidade Central da Venezuela (UCV) José Guerra, a conta das nacionalizações ainda não pagas é de cerca de US$ 15 bilhões. "O adiamento da nacionalização do banco era previsível. O governo não tem caixa para financiar mais nada."

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