15 de abr de 2009

Idiomas, quantos fazem a diferença?

São Paulo, 15 de Abril de 2009 - A coordenadora de exportação da Devas, empresa que atua no ramo de exportação de arroz e açúcar, Glória de Pointis, começou a ter aulas de francês na semana passada. Há um ano a empresa tem um contrato de exclusividade com a suíça Novel Commodities. O inglês é uma língua frequente na hora de negociar com a parceira, mas Glória considera que o francês pode ajudar na relação e até ser um diferencial. "Eles falam inglês conosco, mas numa eventualidade, caso precisemos ir para lá, é importantes falar mais um idioma", observa. Além do inglês, Glória diz que compreende bem o espanhol e também não fica perdida ao se comunicar em japonês. "No mundo globalizado, está morto quem fala apenas uma língua. É preciso conhecer pelo menos três", afirma... Foi de Glória a iniciativa de reunir alguns colegas para estudar um novo idioma. Agora, duas vocês por semana, ela e mais três profissionais da Devas recebem o francês Yann Danjou, que além de professor é tradutor, intérprete e ator. Cada encontro do grupo dura cerca de uma hora. Segundo ele, a língua inglesa é, de longe, a mais procurada por executivos, diretores e gerentes de empresas, o que não torna menos importante o conhecimento de outros idiomas. "Até mesmo em algumas empresas francesas as reuniões são feitas em inglês. Mesmo assim, há uma procura interessante pela língua francesa", assegura. Danjou ressalta que os franceses gostam quando um estrangeiro utiliza o idioma deles. Por isso, não é má idéia fazer algumas aulas antes de entrar em um avião rumo a Paris. "Na França, é melhor tentar falar um francês ruim do que chegar falando inglês. Isso é algo cultural que conta muito nas empresas", orienta. Segundo ele, esse comportamento era mais acentuado 10 ou 15 anos atrás. Hoje, os homens negócio daquele país são mais flexíveis e aceitam o inglês como uma espécie de língua internacional, principalmente quando se trata do mundo empresarial. Outra idioma importante no universo corporativo é o espanhol. Além da contar com a presença de grande empresas espanholas - como o Grupo Santander e a Telefônica -, o Brasil também costuma ser a sede da operação latinoamericana de muitas multinacionais. O domínio do espanhol pode facilitar a vida do executivo que precise fechar negócios na Argentina, Venezuela, Chile ou outro país da região. "Antes, os anúncios de emprego diziam que o inglês era obrigatório. Depois, começaram a incluir que o espanhol era desejável. Hoje, o espanhol também aparece como obrigatório", ressalta o diretor do Instituto Cervantes de São Paulo, Pedro Benidez.

Armadilhas linguísticas

Quem é fluente e português costuma sentir facilidade para aprender o espanhol. Isso ocorre porque, à primeira vista, existe certa proximidade entre essas línguas, seja na pronúncia e no vocabulário, seja na estrutura gramatical. Mas tais semelhanças costumam funcionar como verdadeiras armadilhas linguísticas e podem gerar muita incompreensão durante um reunião de negócios. "Às vezes a pessoa não sabe se determinada forma é espanhol ou português. Isso gera problemas", alerta Benidez. Por outro lado, o entendimento sonoro do idioma não é tão complicado para um brasileiro. "Trata-se de uma língua foneticamente mais simples do que o português. Se o executivo visitar a Espanha, ele compreenderá muitas coisas", afirma. A situação é mais difícil para quem tem o espanhol como língua nativa. "A fonética do português é complicada. As vogais, por exemplo, podem ser abertas ou fechadas. Isso não acontece no espanhol", diz Benidez. Conhecer um outro idioma também ajuda o negociador a cumprir uma antiga regra do mundo corporativo: a satisfação do cliente vem em primeiro lugar. "Se eu quero comprar, posso fazer isso em qualquer língua. Mas se eu quero vender, é melhor usar a idioma do outro, para simplificar a vida do comprador. Se estou tranquilo no meu escritório e alguém vem vender algo, ele precisa explicar bem do que se trata. Para isso, deve falar minha língua", diz.
Diferenças culturais
Na hora de fazer negócios com estrangeiros, o conhecimento de idioma pode ser insuficiente. Para se comunicar bem, é necessário entender alguns hábitos do outro povo. Quando se trata dos franceses, o brasileiro deve evitar o excesso de informalidade. "Na França, as pessoas esperam que se use uma linguagem mais formal, ainda mais no mundo dos negócios. Mesmo no dia-a-dia, o francês é mais sério", observa Danjou. Benidez também considera fundamental saber lidar com as diferenças culturais. "Um executivo pode falar muito bem uma língua e não conseguir fechar um contrato porque não entende como aquele mundo está organizado", alerta. Em um jantar de negócios, por exemplo, os espanhóis deixam o tema principal para o final. "Na Espanha, a sobremesa é muito prolongada. Ficamos mais tempo bebendo um café ou tomando um uísque do que na refeição em si. Quando um espanhol fala que o jantar foi de ‘café, copa y puro’ significa que foi muito bom, que os participantes ficaram muito tempo conversando, bebendo algo e fumando", observa. Não são apenas os brasileiros que se esforçam para aprender um idiomas. Alguns executivos estrangeiros que vêm para o País procuram aprender o português. Mas mesmo que o Brasil esteja cada vez mais presente no noticiário econômico internacional por bons motivos, o interesse desse grupo pelo idioma continua estável. Ou seja, baixo. É o que afirma a sócia-diretora da Across In-Company Programs, Lina Molaris. Sua escola, que existe há 15 anos, inicialmente trabalhava apenas com o inglês. Com o tempo, ingressou no ramo de espanhol e, depois, criou programas de português para estrangeiros. "Dentro das corporações, as reuniões [internacionais] acabam sendo em inglês. Quando algum executivo ou empresa nos procura, é mais por interesse no português coloquial, para o dia-a-dia, aquele que permite uma conversa com os colegas. No cotidiano de negócios, o inglês é mais comum", diz.

(Gazeta Mercantil/Caderno D - Pág. 7)(João Paulo Freitas)
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