28 de fev de 2009

Interpretação substitutiva

Em meus bons tempos de Colégio de São Bento, tive a grata oportunidade de conhecer um professor de literatura quem, amalgamou em meu espírito duas práticas: criar um estreito relacionamento com o dicionário e usar, sempre que possível, a técnica da interpretação substitutiva. Esta técnica era uma criação sua e consistia, basicamente, a partir de um texto qualquer, normalmente a citação de alguma personalidade histórica, substituir algumas palavras e, então, analisar o novo sentido do texto. Em alguns casos, o resultado era engraçado, em outros, bastante reflexivo, mas, jamais contestei que se trata de técnica que aprimora bastante o exercício literário. Sendo assim, tomei a liberdade em aplicar a técnica ao texto apresentado sobre a crise, tentando expor, talvez, uma visão diferenciada daquilo que afirmou o pai da relatividade. Seria, sem margem para discussão, uma verdadeira utopia, tentar me sobrepor ao grande gênio, mas, mostrar uma versão diferente daquilo que ele falou, sem alterar profundamente o significado do texto original, emprestando-lhe uma roupagem nova, abordando o mesmo objetivo é, por si só, uma ousada aventura. Vale a pena refletir sobre esta nova interpretação. Crise, segundo nosso velho amigo Aurélio, possui uma série de significações, mas, vou assumir apenas aquela que efetivamente se encaixa no atual contexto da economia mundial: ponto de transição entre um período de prosperidade e outro de depressão. Fica aqui, de qualquer maneira, a sugestão, de que tentemos descobrir, qual o significado que o gênio teria assumido, para o vocábulo crise, quando escreveu estas palavras. Sempre questionei estes posicionamentos extremamente positivos, incentivadores e, porque não dizer, até altruístas, quando enfrentamos as crises. É claro, que ninguém seria estúpido o bastante para mostrar ao outro a verdade dos fatos: “Olha meu amigo, a situação é bastante feia e não sei se você vai conseguir sair dela, mesmo com toda a sua capacidade e criatividade”. Ninguém em sã consciência costuma tomar esta postura. Mas, por que? Talvez, porque não queremos passar aquela impressão de que somos “pessoas negativas” e que só enxergamos o lado negro das coisas. Mas, a verdade, é que a verdade dói. Honestamente, quando me defronto com estas posições incentivadoras, me imagino no Titanic e, em meio àquele pânico todo, um cidadão agarra o meu braço, e diz para que eu tenha fé e que use minha capacidade para tentar sair daquela crise. Sendo mais honesto ainda, minha vontade, era a de encontrar o capitão e manda-lo à “pqp” (eu sei que ele ia para lá) e, perguntar-lhe, porquê é que ele cismou em aumentar a velocidade do navio sabendo que, estávamos navegando entre icebergs e que a visibilidade estava comprometida. Se ele tivesse mantido uma velocidade de cautela, eu, talvez, não estivesse agora, prestes a morrer afogado e, completamente congelado. Quanto ao amigo que agarrou o meu braço, morreu há alguns minutos. Ainda assim, o meu ponto de vista sobre as crises e, como proceder no meio delas, não difere muito do que a grande maioria defende, mesmo porque, seria tolice tentar remar contra a maré (ainda mais naquele oceano gelado e sem um bote salva-vidas). Entretanto, a ótica que eu mais abraço é a que enaltece o verdadeiro estrategista como aquele que consegue prever as crises e não aqueles que sugerem milhares e milhares de alternativas para sair dela. Uma vez no meio dela, a única coisa que tentamos fazer é sair dela. Não importa se nadamos para a esquerda ou à direita, o que queremos é alcançar a margem. Por isso, ao aplicar a interpretação substitutiva no texto de Einstein, busquei os antônimos aos vocábulos negativos, procurando mostrar que, muito mais difícil do que vencer a crise, estando no meio dela é, superar a bonança, estando bem no meio dela. Porque na bonança, tudo é fácil e, por isso mesmo, é extremamente difícil exercitarmos a nossa criatividade e a nossa capacidade, evitando desta forma, que sejamos atingidos pelas crises. O raciocínio pode parecer complicado, mas, com um pouco de paciência, percebe-se altamente legível. Basta para tanto, trazer à tona, quantas vezes pensamos em crise, quando estamos na bonança. Uma fábula infantil, muito famosa, ilustra bem minha posição. Enquanto uma cigarra, na bonança, só cantava e tocava violão, suas amiguinhas, as formiguinhas, também na bonança, trabalhavam, aprimoravam-se, usavam toda a sua capacidade e criatividade como forma de armazenar a maior quantidade de alimento possível, pois sabiam muito bem, que, a crise, na fábula, o inverno, não demoraria a chegar. Espero que o senhor Albert não se importe pelas alterações que fiz em seu texto. Parabéns pelo tópico.

"Não pretendemos que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo. A bonança é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a bonança traz progressos. A criatividade nasce do regozijo, como o dia nasce da noite escura. É na bonança que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a bonança, supera a si mesmo sem ficar "superado". Quem atribui à bonança suas vitórias e riquezas, enaltece seu próprio talento e respeita mais as soluções do que os problemas. A verdadeira bonança é a bonança da competência. O conveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem bonança não há desafios; sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem bonança não há mérito. É na bonança que se aflora o melhor de cada um. Falar de bonança é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única bonança ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la"

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